8 de janeiro de 2026

Espaços Urbanos  

Praças ao Lado de Viadutos: O Dilema do Planejamento Urbano Entre Saúde Pública e Aproveitamento de Espaço 

A instalação de áreas de lazer em zonas de tráfego intenso levanta um debate complexo sobre poluição, segurança e a escassez de terrenos em metrópoles. 

A questão da implantação de praças e áreas de convivência nas adjacências de viadutos e grandes vias de tráfego não se resume a um simples “certo ou errado”. Ela representa um dos dilemas mais prementes do planejamento urbano contemporâneo, forçando gestores a ponderar entre a necessidade de criar espaços verdes e a manutenção da qualidade de vida e saúde pública dos cidadãos. 

Apesar de ser uma prática observada em cidades com alta densidade populacional, a localização de áreas de lazer ao lado de infraestruturas de tráfego pesado está longe de ser o cenário ideal. 

Os Custos Invisíveis: Poluição e Qualidade de Vida 

A principal crítica a essa prática reside no impacto direto do tráfego sobre o ambiente de lazer, transformando o que deveria ser um refúgio em uma área de exposição a riscos: 

  • Poluição do Ar: A proximidade com vias de alto fluxo veicular resulta em elevadas concentrações de gases tóxicos e material particulado (MP), como óxidos de nitrogênio e monóxido de carbono. A exposição contínua a esses poluentes representa um risco significativo, especialmente para grupos vulneráveis como crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios. 
  • Poluição Sonora: O ruído incessante e intenso do tráfego compromete o objetivo central da praça – ser um local de descanso, tranquilidade e convivência social. O barulho constante gera estresse e pode prejudicar a saúde auditiva e mental dos frequentadores. 
  • Segurança e Estética: A estrutura maciça dos viadutos pode criar áreas de sombra e visibilidade reduzida, que, se não forem bem iluminadas e monitoradas, podem suscitar insegurança. Além disso, a arquitetura imponente tende a desvalorizar a estética e a sensação de bem-estar do espaço verde. 

A Oportunidade da Regeneração Urbana 

Em contrapartida, defensores do aproveitamento desses espaços apontam para a dura realidade da escassez de espaço em megacidades. 

O uso de áreas sob ou ao lado de viadutos é visto, por vezes, como a única alternativa para resgatar terrenos que, de outra forma, ficariam inutilizados, degradados ou se tornariam focos de lixo. Essa estratégia se enquadra na busca pela regeneração urbana, onde projetos arquitetônicos e de paisagismo são usados para “costurar” a malha urbana, mitigando o “efeito barreira” imposto pelas grandes construções. 

Soluções de Mitigação: O Que Deve Ser Feito 

Quando a localização adjacente a viadutos se torna inevitável por questões logísticas, a aceitabilidade da prática depende de medidas de mitigação robustas e do monitoramento constante: 

  1. Barreiras Físicas: Uso de muros ou barreiras acústicas de alto desempenho para atenuar o ruído do tráfego. 
  1. Vegetação Densa: Implantação de cinturões verdes densos, com espécies arbóreas e arbustivas, que atuam como filtros naturais, ajudando a absorver parte dos poluentes atmosféricos e a dispersar o ruído. 
  1. Monitoramento: Estabelecimento de um sistema contínuo de monitoramento da qualidade do ar e do som para garantir que os níveis de poluição estejam dentro dos limites de segurança para uma área de lazer. 

Em suma, embora a prioridade urbana deva ser a saúde e o conforto, localizando praças em áreas de ar mais limpo e mais silenciosas, o aproveitamento de espaços marginais em viadutos pode ser uma solução aceitável – mas somente se vier acompanhada de um investimento pesado e permanente em tecnologia e paisagismo para proteção da saúde pública. 

About The Author

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *