26 de abril de 2026

EDITORIAL:  

O Escárnio de Zampolli e o Silêncio que Consentir 

Em abril de 2026, o debate público foi contaminado pelo esgoto verbal de Paolo Zampolli. Em entrevista à rede italiana RAI, o enviado especial de parcerias globais do governo Trump não apenas insultou um gênero ou uma nacionalidade; ele tentou desumanizar toda uma parcela da população ao classificar mulheres brasileiras como uma “raça maldita” e seres “programados para causar confusão”. 

As falas de Zampolli não são “opiniões polêmicas” ou “desabafos de um divórcio difícil”. São a expressão pura da misoginia estrutural, turbinada por um complexo de superioridade imperialista. Ao usar termos degradantes para se referir a mulheres que, como sua ex-esposa Amanda Ungaro, ousam denunciar abusos, Zampolli revela a face mais perversa do poder: aquela que utiliza a influência política (incluindo o acionamento do ICE para deportações) como arma de retaliação doméstica. 

Entretanto, o que assusta tanto quanto a virulência de Zampolli é a ensurdecedora quietude de setores que deveriam ser os primeiros a erguer a voz. 

Onde estão os influenciadores e formadores de opinião que costumam capitalizar em cima do “empoderamento feminino” quando o agressor é um homem de alta influência na Casa Branca? Por que certas vozes que se dizem defensoras da causa das mulheres — e que não hesitam em cancelar figuras menores por deslizes semânticos — agora se mantêm em um silêncio covarde e estratégico? 

O silêncio, neste caso, não é neutro; é uma escolha política. Ignorar a agressão de Zampolli é validar a ideia de que o respeito à dignidade da mulher brasileira é negociável, dependendo de quem é o agressor ou de quão alto ele está na hierarquia do poder global. 

O Ministério das Mulheres cumpriu seu papel institucional ao repudiar o discurso de ódio. Mas a sociedade civil e os líderes de opinião brasileiros não podem se omitir. Aceitar passivamente que uma autoridade estrangeira nos chame de “raça maldita” é permitir que a misoginia se torne uma moeda diplomática aceitável. 

Repudiar Paolo Zampolli é o mínimo. Questionar quem se cala diante dele é o necessário para que a hipocrisia não enterre, de vez, a ética no debate público. 

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