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São José do Turvo: O Tesouro Escondido do Vale do Paraíba Fluminense

Mais Antigo que a Própria Barra do Piraí, o Distrito Esbanja História Colonial e a Maior Reserva de Mata Atlântica do Município, tornando-se o Refúgio Ideal para o Ecoturismo e a Redescoberta Histórica. 

São José do Turvo é o primeiro maior dos quatro distritos do município de Barra do Piraí, no sul fluminense do Rio de Janeiro, com uma área de 118,819 km². Apesar de sua extensão territorial, abriga a menor população da região, com menos de mil habitantes. Esse rincão preservado mantém traços rurais do século XX, atraindo visitantes em busca de tranquilidade, belezas naturais e um patrimônio arquitetônico singelo, como a Igreja de São José, erguida no coração da Praça Genésio Soares. Localizado no Vale do Paraíba Fluminense, o distrito é um refúgio pitoresco, ideal para o ecoturismo, com trilhas que revelam a Mata Atlântica intocada e nascentes cristalinas. Pouco conhecido mesmo entre os barrenses, São José do Turvo representa um capítulo vivo da história colonial e imperial do Rio de Janeiro, mais antigo que a própria sede municipal em 35 anos. 

Origens Coloniais: Das Sesmarias à Formação Eclesial (Século XVIII)

As raízes de São José do Turvo remontam ao início do século XVIII, quando as terras da região integravam vastas sesmarias concedidas durante o período colonial. Pelos idos de 1730, o território pertencia ao curato de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova – conhecido pelos indígenas como Timburibá –, uma área de floresta densa habitada por tribos como os Xumetos, Pitas e Araris (chamados “Coroados” pelos colonizadores devido ao formato de seus cabelos). Em 1756, com a elevação do curato à categoria de freguesia, os limites se expandiram, abrangendo o que viria a ser o curato de Nossa Senhora das Dores do Além Paraíba (atual Dorândia), também distrito de Barra do Piraí. 

A ocupação inicial foi marcada pela expansão cafeeira no Vale do Paraíba, que transformou a região em um polo econômico imperial. Fazendas como a São José (antiga Fazenda do Turvo), remanescentes do ciclo do café, ilustram essa era de prosperidade escravista, com solares e plantações que se estendiam da serra à beira do rio Paraíba do Sul. No contexto mais amplo do Vale Fluminense, São José do Turvo fazia parte de um mosaico de propriedades que impulsionaram a migração e o desmatamento seletivo, mas preservaram bolsões de floresta original. 

Evolução Administrativa: Da Capela à Freguesia e Distrito (Séculos XIX-XX)

A identidade local ganhou contornos eclesiais e administrativos no século XIX. A capela de São José, dedicada ao padroeiro, pertencia inicialmente à freguesia de Nossa Senhora do Amparo, no então município de Barra Mansa. Em 11 de agosto de 1851, foi elevada a sede de curato por provisão episcopal, marcando o início de sua autonomia religiosa. A consolidação veio em 28 de setembro de 1855, com a Lei Provincial nº 802, que a transformou em freguesia autônoma, desmembrada de Amparo. Essa vitória administrativa foi contestada pela Câmara de Barra Mansa, que enviou representações ao governo provisório para reverter o decreto, alegando perda territorial. No entanto, a proposta foi rejeitada, e a freguesia foi mantida, integrando o nascente município de Barra do Piraí após sua criação em 10 de março de 1890. 

Registros paroquiais revelam uma sucessão de capelães e vigários que moldaram a comunidade, como Joaquim Timóteo da Silva (1852-1855) e Manuel dos Santos Silva (1860-1868), muitos dos quais atuavam em múltiplas freguesias vizinhas. Em 1933, São José do Turvo foi formalizado como distrito de Barra do Piraí, e em março de 1938, reconhecido administrativamente pelo Decreto-Lei Estadual nº 392-A31. Na divisão territorial de 1960, permaneceu como um dos cinco distritos do município, ao lado de Dorândia, Ipiabas, Vargem Alegre e a sede. Assim, o distrito é 160 anos mais antigo que a emancipação de Barra do Piraí, com raízes que precedem a própria fundação da vila em 1843. 

A Liderança do Barão do Turvo: Uma Luta pela Autonomia

A elevação de São José do Turvo a freguesia deve-se à tenaz defesa do Coronel José Gomes de Souza Portugal, um dos maiores vultos da história barrense. Nascido na região, foi eleito deputado estadual e liderou o desmembramento da freguesia de Nossa Senhora do Amparo. Sua articulação política garantiu a aprovação da Lei nº 8082, superando oposições de Barra Mansa. Posteriormente intitulado Barão do Turvo, Portugal simboliza a resiliência local, defendendo a validade constitucional do decreto e consolidando a identidade turvense. Sua influência ecoa em registros genealógicos e administrativos, como os do Almanak Laemmert, que documentam a paróquia de 1846 a 1889. 

O Patrimônio Arquitetônico: A Igreja de São José

No centro da arborizada Praça Genésio Soares, a Igreja de São José, construída em 1867, é o marco histórico mais emblemático. Sua fachada em alvenaria branca e cinza, com colunas laterais, arcos em portas e janelas, e uma torre sineira coroada por crucifixo, evoca o estilo neoclássico imperial. Vitrais circulares iluminam as paredes laterais, enquanto o interior preserva o altar decorado em alto-relevo e uma imagem de São José em madeira, esculpida em tamanho natural, além de outras relíquias do século XIX. A igreja não só serviu como polo religioso, mas também como centro comunitário durante o auge cafeeiro, resistindo ao tempo e às disputas administrativas. 

Belezas Naturais e Potencial Turístico: A Mata Atlântica Preservada

 

Embora pequeno em população, São José do Turvo detém a maior área contínua de Mata Atlântica no município, com 90% de preservação em propriedades como a Fazenda Parnaso e Serra Luzia (50 alqueires). Esse bioma rico abriga florestas altas e estratificadas, com espécies centenárias como jequitibá (Cariniana legalis, com exemplares de 40m de altura e 10m de circunferência), garapa, vinhático, sapucaia (Lecythis pisonis), pau-brasil, canela (Nectandra lanceolata) e braúna (Melanoxylon braúna). Nascentes abundantes alimentam o Rio do Sal, que deságua no Rio Turvo e, por fim, no Paraíba do Sul, sustentando uma biodiversidade ameaçada, incluindo rastros de onças e aves endêmicas. 

O distrito oferece trilhas de até cinco horas, revelando ecossistemas como floresta ombrófila densa e campos de altitude, com potencial para turismo ecológico e pedagógico. Áreas como o Jequitibá da Serra Luzia, próximo à Serra do Roxinho, são joias escondidas, ideais para quem busca conexão com a natureza selvagem do Vale do Paraíba. No contexto regional, essa preservação contrasta com o desmatamento histórico do ciclo do café, posicionando São José do Turvo como refúgio para espécies raras de flora e fauna. 

Acesso e Desafios Infraestruturais

A RJ-141, estrada estadual antiga e sinuosa, liga São José do Turvo a Dorândia, cortando trechos serranos com curvas acentuadas. Como via vicinal, sofre com pavimentação irregular, agravada pelas chuvas frequentes na serra, demandando investimentos para melhor acessibilidade e turismo sustentável. 

Preservação e Futuro: Um Chamado à Visita e à Ação

São José do Turvo, com sua história de 290 anos de autonomia e belezas intocadas, é um tesouro subestimado do sul fluminense. Iniciativas como as visitas do Portal Nossa Região destacam trilhas inéditas e anseios locais, enfatizando a necessidade de presença municipal para atender comunidades rurais e fomentar o ecoturismo. Fontes especializadas, como Municípios e Topônimos Fluminenses: Histórico e Memória (Antonio Izaías da Costa Abreu, 1994), e registros paroquiais do Almanak Laemmert corroboram essa narrativa, convidando a uma redescoberta que una passado imperial, natureza exuberante e desenvolvimento sustentável. Desconhecido por muitos, amado por quem o visita, o distrito sussurra lições de resiliência e preservação em cada nascente e capitel. 

Ronaldo José: Como jornalista, minha paixão pela informação e comunicação moldou minha trajetória profissional. Dedico-me ardentemente a levar notícias de forma ágil e precisa, sem comprometer a imparcialidade. Ronaldo José-JORNALISTA: Registro-0041725/RJ

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