Disputas internas e o uso de narrativas religiosas evidenciam rachaduras no bolsonarismo e desafiam a estabilidade institucional.
Os desdobramentos políticos neste início de 2026 trazem à tona uma crise profunda no núcleo da direita brasileira. A recente divulgação de uma carta manuscrita do ex-presidente Jair Bolsonaro, repleta de metáforas bíblicas e atribuições de papéis messiânicos a si e ao seu filho, Flávio Bolsonaro, acendeu um alerta tanto em aliados quanto em opositores. O episódio não apenas flerta com o populismo religioso, mas revela uma fragmentação estratégica que pode redefinir o campo conservador para os próximos ciclos eleitorais.
A Instrumentalização da Fé e o Desconforto Cristão
O uso de referências bíblicas para legitimar figuras políticas não é novidade, mas o tom adotado no documento gerou um desconforto inédito entre setores cristãos. Para muitos líderes religiosos e fiéis, a tentativa de transpor figuras sagradas para o ambiente institucional soa como uma distorção dos valores evangélicos e uma afronta ao caráter laico do Estado. O que antes era visto como “defesa de valores” agora é interpretado por críticos como um “delírio messiânico” utilizado como ferramenta de manutenção de poder.
Guerra Interna: Michelle Bolsonaro vs. Silas Malafaia
Além da questão simbólica, o episódio expôs as vísceras de uma disputa por protagonismo. Relatos de bastidores indicam um embate direto entre a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e o pastor Silas Malafaia. O ponto de discórdia seria a exposição da saúde do ex-presidente e a exploração política do drama familiar.
Essa divergência escancara que a unidade do grupo, muitas vezes pregada em palanques, é frágil. Enquanto Michelle busca consolidar sua própria liderança, figuras históricas do movimento resistem à sua ascensão, criando um cenário de “fogo amigo” que compromete a coesão do eleitorado de direita.
O Compromisso com a República
Em uma democracia saudável, a disputa por liderança é legítima. No entanto, o cenário atual preocupa pela substituição do debate de ideias pela instrumentalização de questões pessoais e familiares. O Brasil de 2026 exige sobriedade. A maturidade política pressupõe que lideranças atuem com responsabilidade pública e transparência, deixando de lado slogans messiânicos em favor de soluções reais para os desafios do país.
A preservação da confiança nas instituições depende, fundamentalmente, de um distanciamento entre a fé individual e as estratégias de poder. Sem esse limite, a política brasileira corre o risco de se tornar um campo de batalhas narrativas, onde a verdade e o bem comum são os primeiros sacrificados.
Fontes citadas pelo texto original: Matéria de Vinícius Carvalho (Área VIP) com informações de Malu Gaspar (O Globo).